Um Retorno Mais Amargo que Doce

“Parecia que eu não via o Tim havia eras. Eu só queria botar o papo em dia”, revelou Tom Chaplin, vocalista do grupo Keane, sobre seu colega de banda Tim Rice-Oxley, em entrevista recente à Paste Magazine. “Ele veio me visitar. A gente se sentou na frente da lareira e tal, no Natal, e foi lindo. Acabamos falando de música e o Tim tinha composto várias documentando a vida dele nos últimos anos, que não tinham sido muito bons… O casamento dele tinha terminado e ele tinha sofrido muito”. Assim, nesse tom amargo, depois do lançamento de uma coletânea de maiores sucessos em 2013 e um hiato de quase seis anos, a banda pop inglesa finalmente retorna com seu quinto álbum de estúdio, Cause and Effect.

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Com apenas uns sintetizadores oníricos à la M83 e a voz melódica de Chaplin, o novo trabalho do grupo anuncia em “You’re Not Home”, sua faixa de abertura, o início de mais um importante ciclo pra banda, que com grande êxito conseguira ainda nos anos 2000 superar o sucesso estrondoso do primeiro álbum com as reverberações melancólicas de Under the Iron Sea e com as guitarras mais frenéticas de Perfect Symmetry. As faixas seguintes, as emocionantes “Love Too Much” e “The Way I Feel” (já pré-lançadas como singles do álbum), além disso, parecem querer confirmar que o quarteto voltou com força total e está pronto pra começar sua nova turnê pelas Américas e pela Europa.

No entanto, após esse princípio triunfal, há uma quebra no ritmo do disco e Cause and Effect se entrega a baladas mais nostálgicas e contidas que, embora não decolem como os verdadeiros hinos passados da banda, revelam uma etapa mais madura de suas composições. Passadas as sugestões eróticas da monótona “Put the Radio On”, a banda reflete sobre o fim doloroso de um relacionamento através de canções como a soturna marcha de “Strange Room”, reflexões impossíveis em álbuns anteriores, pois agora o rompimento envolve a criação de filhos e o impacto do dinheiro numa relação, como discute a excelente “Stupid Things”.

Em termos sônicos, a banda alcança um equilíbrio entre seu álbum anterior, Strangeland, com a primazia do piano, e os sintetizadores mais sombrios que tanto elevaram Under the Iron Sea. Nesse sentido, o teclado da saudosa “I’m not Leaving” evoca canções antigas como “Put it Behind You”, e a sonoridade eletrônica dos anos 80 em “Phases” relembra algumas passagens de Perfect Symmetry.

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A própria banda parece estar ciente de que produziu um álbum especialmente melancólico, inclusive pros padrões do Keane. “Até que esse não é um disco completamente sombrio, né?” brincou Chaplin antes de acelerar um pouco ritmo com “Chase the Night Away” no show de lançamento do álbum em Bexhill-on-Sea, na Inglaterra. O que talvez seja a queixa de muitos fãs é que a banda sempre foi melancólica, mas, de alguma maneira, sempre compunha canções tristes que conseguiam colocar um estádio inteiro pra cantar junto, quase como numa cerimônia religiosa.

Esse é o caso de grande hinos da banda como “Everybody’s Changing”, “Nothing in My Way” e “Sovereign Light Café”. Além dos incríveis singles já lançados, no entanto, Cause and Effect não oferece mais nenhuma grande catarse capaz de levantar o público em um festival de verão. Se é que não é um oxímoro, o álbum proporciona uma catarse contida, sofrida como os fantasmas de uma relação que acaba, como uma canção triste no piano imaginando a pessoa que se foi.

A banda já anunciou via Twitter que a volta do Keane não é permanente. Ou seja, ainda não está decidido se depois da turnê do disco, o quarteto volta ao estúdio. O que resta é agarrar o travesseiro e curtir essa fossa como só essa banda de brit pop consegue fazer.

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No Coração das Trevas da Manígua

Com o sucesso inicial de Narcos e, mais recentemente, a enxurrada de séries como La Casa de las Flores, Luis Miguel, La Casa de Papel e Élite, dá pra se dizer que as séries em língua espanhola na Netflix estão em alta. A última grande adição a esse crescente grupo é a excelente Frontera Verde. A produção colombiana é o mais novo projeto do cineasta Ciro Guerra, cujo hipnótico Abraço da Serpente conquistou projeção internacional e chegou a disputar o Oscar de melhor filme em língua estrangeira em 2016.

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A protagonista da série é Helena (Juana del Río), uma agente federal enviada à fronteira entre Colômbia e Brasil pra investigar o brutal assassinato de um grupo de freiras encontradas no meio da selva amazônica. À medida que a investigação avança, a agente percebe que o crime pode envolver não só a força policial local, mas também traficantes e indígenas da região. Quanto mais se embrenha na floresta, mais Helena também descobre parte da história do século XX na Amazônia e, surpreendentemente, peças importantes do seu próprio passado.

Embora a floresta amazônica nos seja muito familiar através dos telejornais, é interessante que não a tenhamos tão presente no nosso repertório de filmes e séries. No caso de Frontera Verde, sua presença é absolutamente incontornável. Além de cenário da investigação policial principal, a selva (ou “Manígua” como a chamam seus habitantes) tem consciência e agência dentro da trama. Nesse ponto, a produção se mostra extremamente competente ao criar uma multiplicidade de estados dentro da floresta, que além de ora se apresentar como o idílico tropo do paraíso, ora como seu inferno verde oposto, também muitas vezes se apresenta como território quotidiano, e até corriqueiro, das pessoas que aí vivem. Aliás, os personagens interpretados pelo elenco indígena em suas línguas maternas – entre elas o huitoto e o tikuna – adicionam uma camada importante de nuances na negociação do significado mais amplo da floresta. Nesse sentido, os grandes destaques são Ushe (Angela Cano) y Yua (Miguel Dionisio Ramos), essenciais à defesa da vida na mata.

Outra grande surpresa da série é a guinada em direção à ficção científica. A trama visita várias das características tradicionais de tantos outros textos amazônicos: o forasteiro que chega à selva, a exploração da floresta por parte de traficantes, a resistência indígena, o suposto interesse benevolente de cientistas estrangeiros. No entanto, o que se encontra no fim desse labirinto selvático é algo que só começa a se desenhar aos poucos no ponto médio da temporada, quando a organização temporal da narrativa se torna mais evidente. Muito além dos nefastos interesses científicos e econômicos a respeito da fauna, da flora e dos conhecimentos indígenas, o que Helena acaba descobrindo dentro da consciência da Manígua é que algo muito maior está em jogo, algo revelado através de uma curiosa “amazonização” de temas da ficção científica tradicional.

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O que Frontera Verde efetivamente põe em jogo não é só o potencial devastador da destruição da Amazônia, mas nossa própria capacidade de olhar pro nosso passado coletivo e encontrar uma possibilidade de mudança. Desmatar, queimar, e traficar animais já não significa apenas interferir no equilíbrio ecológico do planeta, mas, em última instância, perder parte da nossa humanidade, a parte que cria histórias pra dar sentido a passado e futuro, a parte que enxerga o mundo além da existência do indivíduo e entende o sentido de preservá-lo em respeito às gerações que se foram e às que hão de vir. Se o protagonista de Joseph Conrad no clássico da literatura Coração das Trevas viaja às profundezas da selva pra encontrar a maldade humana, a mitologia amazônica de Frontera Verde expande essa viagem e mostra que a jornada é muito maior que a nossa espécie, é a jornada da consciência do tempo e da própria terra, em toda sua diversidade de seres humanos e não humanos.