500 Palavras

No Coração das Trevas da Manígua

Advertisements

Com o sucesso inicial de Narcos e, mais recentemente, a enxurrada de séries como La Casa de las Flores, Luis Miguel, La Casa de Papel e Élite, dá pra se dizer que as séries em língua espanhola na Netflix estão em alta. A última grande adição a esse crescente grupo é a excelente Frontera Verde. A produção colombiana é o mais novo projeto do cineasta Ciro Guerra, cujo hipnótico Abraço da Serpente conquistou projeção internacional e chegou a disputar o Oscar de melhor filme em língua estrangeira em 2016.

A protagonista da série é Helena (Juana del Río), uma agente federal enviada à fronteira entre Colômbia e Brasil pra investigar o brutal assassinato de um grupo de freiras encontradas no meio da selva amazônica. À medida que a investigação avança, a agente percebe que o crime pode envolver não só a força policial local, mas também traficantes e indígenas da região. Quanto mais se embrenha na floresta, mais Helena também descobre parte da história do século XX na Amazônia e, surpreendentemente, peças importantes do seu próprio passado.

Embora a floresta amazônica nos seja muito familiar através dos telejornais, é interessante que não a tenhamos tão presente no nosso repertório de filmes e séries. No caso de Frontera Verde, sua presença é absolutamente incontornável. Além de cenário da investigação policial principal, a selva (ou “Manígua” como a chamam seus habitantes) tem consciência e agência dentro da trama. Nesse ponto, a produção se mostra extremamente competente ao criar uma multiplicidade de estados dentro da floresta, que além de ora se apresentar como o idílico tropo do paraíso, ora como seu inferno verde oposto, também muitas vezes se apresenta como território quotidiano, e até corriqueiro, das pessoas que aí vivem. Aliás, os personagens interpretados pelo elenco indígena em suas línguas maternas – entre elas o huitoto e o tikuna – adicionam uma camada importante de nuances na negociação do significado mais amplo da floresta. Nesse sentido, os grandes destaques são Ushe (Angela Cano) y Yua (Miguel Dionisio Ramos), essenciais à defesa da vida na mata.

Outra grande surpresa da série é a guinada em direção à ficção científica. A trama visita várias das características tradicionais de tantos outros textos amazônicos: o forasteiro que chega à selva, a exploração da floresta por parte de traficantes, a resistência indígena, o suposto interesse benevolente de cientistas estrangeiros. No entanto, o que se encontra no fim desse labirinto selvático é algo que só começa a se desenhar aos poucos no ponto médio da temporada, quando a organização temporal da narrativa se torna mais evidente. Muito além dos nefastos interesses científicos e econômicos a respeito da fauna, da flora e dos conhecimentos indígenas, o que Helena acaba descobrindo dentro da consciência da Manígua é que algo muito maior está em jogo, algo revelado através de uma curiosa “amazonização” de temas da ficção científica tradicional.

O que Frontera Verde efetivamente põe em jogo não é só o potencial devastador da destruição da Amazônia, mas nossa própria capacidade de olhar pro nosso passado coletivo e encontrar uma possibilidade de mudança. Desmatar, queimar, e traficar animais já não significa apenas interferir no equilíbrio ecológico do planeta, mas, em última instância, perder parte da nossa humanidade, a parte que cria histórias pra dar sentido a passado e futuro, a parte que enxerga o mundo além da existência do indivíduo e entende o sentido de preservá-lo em respeito às gerações que se foram e às que hão de vir. Se o protagonista de Joseph Conrad no clássico da literatura Coração das Trevas viaja às profundezas da selva pra encontrar a maldade humana, a mitologia amazônica de Frontera Verde expande essa viagem e mostra que a jornada é muito maior que a nossa espécie, é a jornada da consciência do tempo e da própria terra, em toda sua diversidade de seres humanos e não humanos.

Advertisements

Advertisements